Pólio e Tremores Internos: O Que Está Acontecendo com Meu Corpo?
Pergunta de um sobrevivente da pólio:
“Tenho sentido muitos tremores internos. No início, eles apareciam apenas à noite, me acordando. Agora, surgem e desaparecem ao longo do dia. A sensação vem da coluna, entre e logo abaixo das escápulas. Será que isso tem relação com meus músculos respiratórios ou com um diafragma enfraquecido?”
Resposta do Dr. Bruno (especialista em pólio e Síndrome Pós Pólio):
Essa é uma pergunta frequente entre sobreviventes da poliomielite, e a primeira etapa é descartar causas clínicas comuns — como infecções ou problemas na tireoide — que também podem provocar tremores. Após isso, podemos considerar fatores mais específicos ligados à história com a pólio.
Ao longo dos anos, muitos sobreviventes relataram uma sensação semelhante de “tremores internos”, geralmente descrita como uma vibração profunda, que vai e vem. Esses tremores, na maioria das vezes, não estão diretamente relacionados aos músculos respiratórios ou ao diafragma. A região entre e abaixo das escápulas, onde você sente esses tremores, abriga músculos profundos do tronco (core), que, junto aos músculos das pernas, são os mais propensos a esse tipo de atividade involuntária.
Por que isso acontece com mais frequência em quem teve pólio?
- Respostas térmicas alteradas
Os tremores musculares são, na essência, contrações rítmicas do corpo usadas para gerar calor e estabilizar a temperatura corporal. Em sobreviventes da poliomielite, o vírus pode ter danificado os nervos que controlam os vasos sanguíneos da pele, facilitando a perda de calor corporal. Isso os torna mais sensíveis ao frio e mais propensos a iniciar tremores mesmo em temperaturas que outras pessoas considerariam amenas. - Alterações no centro cerebral do tremor
O hipotálamo posterior, região do cérebro que regula os tremores relacionados à temperatura, pode ter sido afetado pelo poli vírus. Isso pode deixar o organismo de sobreviventes da pólio mais reativo a variações térmicas, mesmo sutis — como estar com o corpo pouco coberto à noite. - Ciclos naturais de temperatura corporal
Muitas pessoas relatam tremores internos durante a madrugada ou nas primeiras horas da manhã. Isso acontece porque o ritmo circadiano do corpo atinge o seu ponto mais frio nesse período, com a temperatura corporal central caindo cerca de 1°C, o que pode ser suficiente para desencadear os tremores. - Tremores pós-anestésico em sobreviventes da pólio
Estudos mostram que até 65% dos sobreviventes apresentam tremores após anestesia geral, e até 33% após raquianestesia. Isso reforça a ideia de uma sensibilidade acentuada ao frio e à variação térmica. Por isso, é essencial que médicos que cuidam de pacientes com histórico de pólio solicitem mantas térmicas no pós-operatório, para reduzir o desconforto e o risco de complicações.
Mensagem final:
Os tremores internos podem ser desconcertantes, mas em muitos casos, eles fazem parte das alterações neuromusculares deixadas pela poliomielite. Se não houver dor ou outros sintomas associados, o foco deve estar em manter o corpo aquecido, evitar ambientes frios e conversar com seu médico sobre estratégias para minimizar esse desconforto. Você não está sozinho — seu corpo apenas continua a contar uma história de resiliência e adaptação.
Fonte:
Escrito por Richard L. Bruno, HD, PhD
https://polionetwork.org/archive/3ki6dsz9iyjzi3s1rs69pobrm04gzf