Personalidade Tipo A ou Estratégia de Sobrevivência?
Depoimento da sobrevivente da pólio Laura Vittorioso.
Durante anos, li em boletins e artigos sobre Síndrome Pós Pólio que sobreviventes da poliomielite costumam apresentar personalidade do Tipo A. Eu mesma já me descrevi assim várias vezes. Mas, olhando com mais cuidado, essa definição não fecha completamente.
A personalidade Tipo A é descrita como impaciente, competitiva, hostil e excessivamente focada em conquistas. Reconheço, sim, a orientação para conquistas — em mim e em muitos sobreviventes da pólio. Basta ouvir nossas histórias para perceber isso. Mas será que isso é personalidade… ou adaptação?
Para entender, é preciso voltar no tempo.
Nas décadas de 30, 40 e 50, a visão sobre deficiência era dura e excludente. Pessoas com deficiência eram escondidas, institucionalizadas ou simplesmente descartadas da vida social. Não havia acessibilidade, inclusão ou expectativa de participação plena na sociedade.
O mundo não estava preparado para nós.
Então, tivemos que nos preparar para o mundo.
Para competir por empregos, precisávamos de algo a mais:
habilidades específicas, formação técnica, diplomas universitários ou pós-graduações. A educação tornou-se uma das poucas portas possíveis.
Lembro-me de ouvir, repetidamente, de médicos, terapeutas, orientadores — e do meu próprio pai: “Você terá que trabalhar mais do que os outros para ser aceita no mercado de trabalho. É improvável que você se case.”
Esse tipo de mensagem molda uma vida inteira.
É impossível colocar todos os sobreviventes da poliomielite na mesma caixa da “personalidade Tipo A”. Somos tão diversos quanto qualquer outro grupo humano. Vejo o mesmo alto desempenho em pessoas cegas ou com deficiência visual. Pessoas com deficiência escalam montanhas, atravessam trilhas difíceis, viajam sozinhas, constroem famílias, carreiras e histórias extraordinárias.
Na minha vida profissional, muitas vezes senti que, se não acompanhasse o ritmo dos colegas, ficaria para trás. Não bastava fazer bem o trabalho — era preciso fazer mais, para provar que eu merecia estar ali.
Empregadores frequentemente usavam o argumento de que contratar pessoas com deficiência aumentaria o seguro contra acidentes. Em entrevistas, fui testada de formas que nada tinham a ver com a função do cargo.
Lembro-me de uma entrevista em um dia de neve. O entrevistador me levou para visitar clientes, andando sobre calçadas escorregadias. Eu estava apavorada. Hoje vejo com clareza: aquilo também era um teste.
Em outra ocasião, ao me candidatar à faculdade, fui conduzida por um tour exaustivo pelo campus, subindo e descendo escadas, em ritmo acelerado. Ninguém reduziu o passo por minha causa. A mensagem era clara: “Você aguenta?”
Como mulher com deficiência, sempre senti que precisava provar — o tempo todo — que era produtiva, confiável e capaz. Não podíamos deixar que nossa deficiência fosse vista como obstáculo. A motivação extrema não nasceu do ego, mas da necessidade.
A discriminação era explícita.
Em uma entrevista para recepcionista de hotel, perguntaram como eu serviria o café da manhã — tarefa que não constava na vaga. Não fui contratada.
Em outra, perguntaram como eu digitava. Respondi: “Não preciso das minhas pernas para digitar.” Também não consegui o emprego.
Fui demitida de um trabalho como transcritora médica porque, segundo o chefe, eu deixava “as outras meninas nervosas”. Elas tinham medo de que eu caísse. Quando disse que poderia me levantar sozinha, fui demitida na hora. Depois de perder um emprego e ficar sem renda, aceitei qualquer trabalho. Em uma fábrica, alguém me disse: “O governo está contratando pessoas como você.”
Perguntei: “Mulheres?”
Ele respondeu: “Não. Pessoas com deficiência.”
Foi assim que minha trajetória profissional realmente começou. Só consegui estabilidade profissional quando um programa estadual incentivou a contratação de pessoas com deficiência. Isso abriu a porta para minha carreira no serviço público e para o trabalho com pessoas cegas e com deficiência visual.
O que me levou a compartilhar essa experiência?
Talvez não sejamos Tipo A.
Talvez sejamos pessoas treinadas pela exclusão a não desistir.
O excesso de esforço não nasceu da ambição — nasceu da sobrevivência.
Você não precisa mais provar nada a ninguém! Seu valor não está na quantidade de esforço, mas na sua história, competência e presença. Pense nisso!

